O filme reconstitui a factual resistência de oito monges cristãos franceses em um monastério nas montanhas da Argélia nos anos noventa. Eles cultivavam a harmonia com seus vizinhos mulçumanos e viviam modestamente. Seus rituais litúrgicos são detalhados através de um olhar atento sobre o cotidiano monástico. Os primeiros créditos do filme revelam a presença de um consultor para assuntos religiosos. Sábia decisão do roteirista e diretor Xavier Beauvois. Junto com o roteirista Etienne Comar, ele consegue dar fidedignidade às vidas dos monges. Naturalmente, são bem auxiliados pelo talento dos atores, principalmente Lambert Wilson e Michael Lonsdale. Este último é responsável por comoventes momentos, ao interpretar um velho médico generoso e terno. Nestes momentos, temos a agradável sensação de estar dentro do monastério.
Se no início as imagens se intercalam serenamente quase sem diálogos, logo depois o filme retoma a tradição verbal do cinema francês e passa a se apoiar em longos trechos das cartas escritas pelos monges, em uma tentativa de nos explicar as razões de suas escolhas. Difícil explicar a escolha em permanecer na região quando o terror e a violência começam a imperar. A delicada teia das relações entre os religiosos vai se fortalecendo à medida que o perigo se instala.
Um dos grandes pilares de um roteiro é o conflito. No caso do filme “Homens e Deuses”, o conflito é justamente permanecer ou não no monastério durante o confronto entre governo e grupos extremistas. Ao explicitar as posições de cada monge, suas personalidades, suas famílias, suas dúvidas e principalmente seus medos, o retrato de cada um vai se delineando. Se no desespero um dos monges não consegue mais escutar Deus, tem sempre um outro capaz de lhe transmitir a palavra divina. Se as pequenas tarefas diárias podem se tornar insuportavelmente pesadas para alguns, não faltam aqueles que continuam a tratar com normalidade e humildade a manutenção do espaço físico comum.
A opção pela contemplação é colocada em cheque constituindo a grande questão do filme. Qual a importância de uma vida contemplativa? Até que pondo um ser humano está disposto a tudo sacrificar pelo ideal da fé? A opção pela crença religiosa, em períodos de intensos distúrbios sociais, não seria na verdade uma forma de suicídio?
Para os que consideram que diante das reais circunstâncias os monges deveriam ter levado a sério os avisos das autoridades locais e seguido suas vidas em outros lugares, a escolha em ficar pode não ser compreensível. Mas para os que se sensibilizam com as responsabilidades assumidas com os irmãos mulçumanos próximos, com as mulheres e crianças doentes e com suas convicções religiosas, ficar era a única posição justa.
Finalmente, as dúvidas e os medos dos monges nos colocam diante das nossas próprias indagações. E nos fazem encarar nossas próprias decisões. Ficar ou ir embora? Não importa. O que realmente parece importar é a solidez das nossas escolhas.
Elza Cataldo.
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