“Turnê”

A história de um ex-produtor fracassado que regressa à França com um grupo de showgirls transita entre a decadência e ousadia. Entre o drama e a comédia. Mathieu Amalric atua como ator e diretor além de assinar o roteiro junto com Philippe Di Folco, Marcelo Novais Teles e Raphaëlle Valbrune. A participação de quatro roteiristas pode explicar (ou não) a fragmentação da narrativa. O personagem interpretado por Mathie Amalric, Joaquim, vai sendo construído progressivamente através dos outros personagens. Passamos a entender seus fracassos, sua frágil situação financeira, sua distante relação com os filhos, suas conquistas amorosas. Na verdade, ao longo deste processo de conhecimento/reconhecimento, nossa curiosidade vai se deslocando do Joaquim para as “girls”. Essas, sim, as protagonistas em potencial do filme. Elas são desinibidas, descobrem com facilidade os corpos voluptuosos e parecem gostar do que fazem e como fazem. Um show feito por mulheres e para mulheres.

Elas defendem o domínio da criação do espetáculo bem como sua realização. Um espetáculo neoburlesco e desconcertante que desejamos, como espectadores do filme, ter a chance de assistir. Por uma opção de Mathieu Amalric – talvez mais como diretor do que roteirista – somos colocados do outro lado do palco. O lado dos bastidores. Das dificuldades de produção do show. Do relacionamento dele com as artistas. Quando na verdade são elas que nos instigam. Assim como sua forma de arte. Quem seriam estas mulheres? Como e onde vivem? Como se relacionam? Perguntas que o filme não responde. O pouco que vemos nos convida a saber mais sobre elas. Não são tão jovens. Não são tão bonitas. Não são tão talentosas. No entanto, estão em um palco atraindo outras mulheres que pagam para vê-las. Fica a impressão de que o público feminino paga para ver algumas mulheres que ousam viver de forma diferente. Que ousam exercer a sexualidade sem pudores. E que ousam viver alegremente uma vida de trupe. O colorido que antevemos por detrás das cortinas que limitam a câmera deixa uma sensação inebriante que só podemos, infelizmente, pressentir. Parece ter faltado ao diretor exatamente o que encantou o roteirista: a força do espetáculo neoburlesco.

Por uma outra opção estética, a França onde o grupo se apresenta foge dos locais turísticos mais conhecidos e procura pequenas cidades visualmente mais neutras ou ângulos sem charme das mais conhecidas. Opção também perigosa que no mínimo empobrece a fotografia do filme.

O fato de ter convidado atrizes que são na vida real também strippers dá um outro toque de venenosa curiosidade não satisfeita. Daquilo que nós conseguimos perceber sobre elas, sentimos também uma pitada de melancolia.

O cinema francês não é muito freqüente nas nossas telas. Através desta turnê temos a chance de entrar em contato com uma cinematografia forte, que exibe como trunfo um sotaque bem característico. Sem complexos. E ganhamos todos em diversidade e originalidade.

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