O roteiro de Aline Brosh McKenna nos apresenta a adorável Becky Fuller, interpretada pela não menos adorável Rachel McAdams. A personagem nos cativa desde o início do filme. Sua energia, seu entusiasmo, sua paixão pelo trabalho nos fazem bem. Entretanto, podemos sentir falta de um respiro. Uma pausa. Momentos mais silenciosos. Até mesmo para dar um contraste com a sua personalidade elétrica. Talvez a própria atriz tenha novamente emprestado algo da sua personalidade à personagem. Rachel já declarou ser às vezes excessivamente amigável. De qualquer forma, é revigorante sua Becky. Ela encara o desemprego com garra e ação. Mesmo enfrentando o pessimismo da mãe (sempre a mãe) que coloca em cheque seus sonhos.
O otimismo acaba lhe valendo um novo emprego como produtora executiva de um jornal matinal. Um programa de televisão com poucos recursos, sem audiência e com profissionais não muito talentosos e desmotivados. Mais uma vez a super Becky entra em ação. Despede um apresentador incompetente e convoca um jornalista veterano, que tem a grande competência do tamanho do seu mau humor. Harrison Ford defende bem o personagem Pomeroy principalmente no quesito mau humor. A rivalidade entre Pomeroy e Collleen Peck, também âncora do programa, rende bons momentos de interpretação. Embora Diane Keaton pareça sempre deslocada desde a sua remota parceria com Wood Allen, na maravilhosa comédia romântica Annie Hall de 1977.
Através do embate entre os apresentadores, com direito a bons diálogos, e do esforço da produtora executiva do programa, a história acaba nos transportando para um debate bem atual, principalmente na televisão brasileira. A busca da audiência justifica todos os meios? A relação entre notícia e entretenimento é aceitável? Ou ainda (sem medo da palavra) seria ética?
Na sua desenfreada luta pelo sucesso profissional, Becky não dedica muito tempo à sua vida amorosa. De fato, a relação trabalho e amor parece ser uma equação difícil de ser equilibrada. Mas um charmoso colega produtor Adam Bennet (Patrick Wilson) faz sua aparição com chance de conquistar um lugar na vida dela.
A narrativa avança junto com as tentativas de Becky para melhorar o desempenho do programa, pressionada pelo chefe. O que resulta em cenas inusitadas. Algumas chegam a ser realmente engraçadas. No jogo de conquistar a audiência, todos se prestam a papéis patéticos (alguma semelhança com uma atração já vista?). Todos menos Pomeroy, cujo mau humor parece conter certa dignidade. Finalmente, ele também vai sucumbir à adorável Becky sem perder completamente sua auto-estima.
O mais comovente no filme é a persistência da protagonista. Ao vê-la descabelar a franja e lançar seu sorriso matador, nos rendemos. E quase torcemos para que suas idéias estapafúrdias sejam bem-sucedidas. Misto de heroína e garota simpática, com energia para tentar vencer as dificuldades com criatividade e humor sem perder a qualidade das relações humanas, Becky nos convida a tentar. E a continuar tentando. Por isso nos inspira.
Elza Cataldo.
0 Respostas para ““Uma manhã gloriosa””