“Sem limites”

O filme começa com um escritor fracassado que sofre de um bloqueio criativo há anos. Eis que um ex-cunhado, reencontrado por acaso, lhe apresenta um remédio milagroso capaz de devolver o potencial criativo e permitir o acesso a 100% da capacidade cerebral. O experiente roteirista Leslie Dixon começa bem sua adaptação do livro de Alan Glynn.  O remédio pode ser considerado sonho de consumo para aqueles que se dedicam ao árduo ofício da escrita. O escritor hesita. Mas o que tem a perder? Sem dinheiro, com um livro em atraso, abandonado pela namorada. A dúvida dura pouco. Ele toma a pequena pílula transparente. Tão transparente que parece inofensiva. Mas as mudanças não demoram a aparecer. Tomado por um furor de vitalidade, ele se desdobra na limpeza do apartamento. O ambiente sujo e desorganizado se transforma em um espaço agradável: louças limpas, livros nas estantes, roupas e móveis no lugar. Em seguida, ele ataca o corpo desleixado.  Os exercícios físicos são mostrados em uma ágil seqüência de imagens. Aprende instantaneamente a falar línguas estrangeiras e instrumentos musicais. Passa a ter acesso automático ao conjunto de informações que havia acumulado durante toda a sua vida, em ritmo alucinante e com precisão absoluta. Faz facilmente cálculos sofisticados através de um raciocínio claro e lúcido. Entretanto, a maior modificação fica por conta da disposição para a escrita. Graças a um delicado efeito visual, uma chuva de letras cai literalmente sobre ele. Diante do laptop ele digita freneticamente as primeiras quarenta páginas do seu livro! Eterno livro, aguardado já com grande desconfiança pela sua editora. Seu texto agrada. Ele checa o estoque restante da pílula mágica e resolve aumentar a dose diária de uma para duas porções.

A história avança.  O escritor agora já tem sua aparência melhorada (uma interpretação correta do ator Bradley Cooper). Até consegue fazer novos amigos. Em um passeio com a nova turma, após um espetacular salto no mar do alto de um penhasco, percebe extensão do que está por vir. Não, o estoque não tinha acabado. Não, as pílulas não perderam seu poder de transformação. O roteirista opta por outro ponto de virada. E assim o escritor entende que a partir daquele momento ele pode fazer coisas bem maiores. A grandiosidade da literatura não lhe é suficiente. Ele percebe que pode usar os poderes do remédio para ganhar dinheiro. Sua capacidade de multiplicar geometricamente os ganhos de um investimento lhe rende a atenção de um grande empresário (papel reduzido, mas suficiente para nos fazer relembrar o talento de Robert De Niro). 

Naturalmente, a saga do herói oferece também dificuldades terríveis. O fornecedor do precioso remédio, ainda não aprovado pelos órgãos de saúde publica, sai de cena.  O escritor passa ser perseguido por outros eventuais usuários em falta. E, sobretudo, os sintomas colaterais são devastadores.  

O filme tem a qualidade de nos fazer transitar entre o suspense e a fantasia. O que não é pouca coisa. Entretanto, a narrativa desanda na linguagem muito acelerada impressa pelo diretor Neil Burger. Não importa. O que realmente importa aqui é a reflexão sobre as nossas estratégias de sobrevivência e de conquista do sucesso.  Principalmente o sucesso de um escritor que depende essencialmente da inspiração.  Frágil e fugaz inspiração. Qual a necessidade do uso de um perigoso comprimido capaz de nos tornar criativos e bem sucedidos? Talvez a resposta seja simples, mas nem por isso fácil. A capacidade de criação está centrada na disciplina.  Se bem misturada a doses de talento, a disciplina se transforma em uma poderosa e saudável porção mágica.  

Elza Cataldo

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