“Cópia fiel”

“Cópia fiel” é uma prova de que não existem regras rígidas para um roteiro cinematográfico. O grande diretor Abbas Kiarostami, que assina também o roteiro, se equilibra com maestria entre o real e o simulacro. A história parte de uma análise sobre a autenticidade das obras de arte para nos arremessar, na boa tradição da filmografia francesa ou do cineasta americano Wood Allen, bem no centro da discussão do relacionamento de um casal. Tudo seria mais difícil se a personagem feminina não pudesse usufruir do talento de Juliette Binoche. Mesmo que o lado masculino seja defendido pelo ator menos experiente, mas não desprovido de charme, William Shimell. Vamos sendo enredados inicialmente pelo encontro (primeiro?) entre uma francesa, dona de uma galeria de arte, e um escritor inglês que vai lançar um livro na Itália exatamente sobre a relação entre obra original e cópia. A bela paisagem da Toscana é pano de fundo para um passeio dos dois. Até então, temos aquilo que tecnicamente é chamado de apresentação dos personagens. Entretanto, logo no inicio do passeio eles se revertem em marido em mulher. E a partir daí, vamos entrar (ou não) no mundo do simulacro. Quanto aos personagens, eles não parecem sentir a eventual hesitação do espectador. Assumem com naturalidade o suposto casamento. A história vai se desenrolando sobre o relacionamento amoroso, com suas mudanças, perdas de ilusões e paixão. Ao mesmo tempo em que transitam entre enredos diferentes, o homem e a mulher vão também transitando entre o inglês, francês e italiano. Uma torre de Babel particular. O pacto com o espectador é então estabelecido. E o espectador, desde que bem conduzido, pode aceitar os pactos mais inaceitáveis. No caso do “Cópia fiel”, temos ainda dúvidas até o final do filme sobre a real condição dos personagens. Às vezes, duvidamos da nossa compreensão. Mas ao racionalizar, perdemos em emoção e a história se fragiliza. No jogo entre real e simulacro, a ausência de regras da narrativa fica evidente. Perde quem se apega demasiadamente na compreensão linear do filme. Perde diálogos saborosos, como o de uma senhora italiana, dona de um café, cuja sabedoria espontânea impressiona e diverte. Perde lindas imagens, que mesmo silenciosas emocionam. Como a infelicidade de uma jovem noiva prestes a se casar. Perde o comovente esforço de comunicação de um casal. Perde, sobretudo, a alegria de se deixar levar por uma história.
A ação dramática do filme está centrada nos diálogos. Caminho perigoso. Dentro dessa opção, a narrativa avança através do que os personagens falam e não através do que fazem. O entorno vai sendo incorporado na discussão do relacionamento deles e ressalta as dificuldades de interação do casal. Dificuldades de um casal ocidental, em que o verbo assume um papel central na comunicação. Apenas um desajeitado gesto é ensaiado, a conselho de um senhor (não por acaso interpretado pelo famoso roteirista Jean-Claude Carrière), cuja idade corresponde a uma sensível sabedoria conjugal. Um simples gesto de carinho, que inspira imediatamente um carinho em retribuição, que é imediatamente apagado por uma nova avalanche de palavras compulsivas.
O intrigante final demonstra mais uma vez que o diretor-roteirista mergulhou profundamente em águas misteriosas. Kiarostami ousa ao se aproximar de um universo amoroso distante da sua própria experiência. Mas a escolha acertada da atriz imprime credibilidade. Juliette Binoche é uma daquelas raras atrizes que escolhem cuidadosamente suas atuações. A admiração mútua por Kiarostami já vinha de algum tempo. Sorte nossa!

Elza Cataldo.

2 Respostas para ““Cópia fiel””


  1. 1 Joao Andre Grossi Pereira março 24, 2011 às 10:16 pm

    Elza, ha muito nao visitava seu site e fiquei feliz de que vc esteja novamente cuidando da atualizacao do Blog.

    Espero q se lembre de mim, sou o Joao Andre da oficina de roteiro de Ipatinga.

    Trago boas noticias, pois a oficina deu frutos. E’ claro q procurei me aperfeicoar, li os livros indicados por vc e fiz outras oficinas inclusive com o cineasta carioca Luiz Carlos Lacerda, o Bigode.

    Escrevi o roteiro de um curta metragem de ficcao: “Passagem” e meu projeto foi aprovado na Lei Estadual de Incentivo a Cultura. Consegui o patrocinio integral da Usiminas e agora estamos reunindo a equipe.

    Pelo cronograma, vamos iniciar as gravacoes em julho.

    Um grande abraco e vou passar mais vezes por aqui.

    Belo artigo (post)! E’ bom saber q o Blog voltou a vida!

    Um grande abraco,
    Joao Andre


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