“O discurso do rei”

O filme “O discurso do rei” ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Merecidamente. Por detrás do impecável jogo de interpretação dos atores Conlin Firfh e Geoffrey Rush está o roteiro exemplar de David Seidler. Os diálogos fluem com inteligência e os personagens vivem suas vidas sem didatismo. Uma das principais características de um bom roteiro é permitir que os personagens vivam. Simplesmente vivam, para que a trama evolua. Roteiros frágeis, principalmente onde a filmografia ainda não alcançou uma maturidade narrativa, como é o caso da filmografia brasileira, acabam inserindo informações explicativas, cujos diálogos soam falsos mesmo na boca de bons atores.  

Por além do cotidiano de um monarca inglês, tema que exerce um fascínio às vezes inconfessável, o que mais encanta no filme é o lado humano do rei. Sua gagueira surge com um elemento de identificação entre o personagem e o espectador. O roteirista, ele próprio com experiência de gagueira, nos permite aproximar de um rei. A gagueira é daquelas doenças que oscilam entre o sofrimento e a comédia. Por mais que sofram aqueles que gaguejam, provocam o riso.  Nada mais inadequado para um monarca que precisava passar credibilidade em uma época trágica, em que se acreditava que uma invasão de Hitler era iminente.

A coragem do rei George VI serviu de exemplo para o roteirista superar sua própria gagueira quando criança. O filme foi então, desde o início, uma história de superação. Além da experiência pessoal, Seidler se valeu dos diários de Lionel Logue, o real terapeuta de fala do monarca. Graças a um neto devotado, Mark Logue, ele pode ter acesso a detalhados relatos do processo de tratamento do rei.  (Esses diários foram publicados no Brasil com o mesmo título do filme e um grandioso subtítulo: como um homem salvou a monarquia britânica).  O orgulho do neto surgiu quando ele foi procurado pelo produtor do filme Iain Canning. Assim ele se deu conta do significado do papel desempenhado pelo avô: como ele tinha ajudado o então Duque de York na luta contra a gagueira que transformou em terrível suplicio seus discursos. É bom notar que o duque virou rei a contragosto, o que conduz a outro personagem do filme, o irmão mais velho que não durou muito como Edward VIII. Com a inesperada abdicação, a trama ganha em conflito. Elemento fundamental de um roteiro. Os grandes mestres frisam, sem conflito não há boa história.

A história do rei gago já tinha rendido também uma peça de teatro de autoria de Mark Burgens. Aliás, David Seidler, ao conceber o roteiro, pensou inicialmente na estrutura de uma peça de teatro onde tudo se passava na sala do terapeuta em atendimento ao rei. As cenas da sala de atendimento têm realmente uma importância central no roteiro. As outras cenas vão sendo alocadas tal qual instrumentos em uma sinfonia. Alguém já disse que cinema é música. Essa é uma representação que ajuda muito na escrita cinematográfica. A composição vai se utilizando de várias sonoridades de forma harmônica ou dissonante. Á critério do roteirista.  

A força do personagem do rei se apóia no grande personagem do terapeuta, que lhe dá contorno e chão. Através da capacidade de escuta do terapeuta o rei encontra sua própria voz. Quando um personagem consegue transcender uma cena e passa algo maior, ponto para o roteirista. A cena passa a emocionar não só pela história que estamos assistindo como por nossos motivos pessoais também.

Alguns consideram o roteiro do “O Discurso do Rei” muito convencional, com uma linguagem ultrapassada. Em contraposição ao outro candidato “A Rede Social”. Esse último, mais moderno e atual. Sorry. Em que pese minha atração pelo mundo virtual, acho que nada é mais cativante do que um filme sobre superação. Mesmo à moda antiga. Desde que bem escrito.

Elza Cataldo,

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