A presença da Pilar na vida das órfãs e da rainha começou com uma colaboração. Talentosa e dedicada ela foi, aos poucos, se tornando parte da história. Trabalhando no roteiro, estabelecemos uma interlocução que nos parece rica e instigante. Pensamos em tentar transpor para este blog nossas dúvidas e tentativas, e quiçá algum acerto sob a bênção do Newton.
Apesar de todo o esforço de pesquisa, uma grande dificuldade com o personagem do índio Zomé persiste. E consequentemente na relação dele com Mécia, uma das três irmãs protagonistas.
Conhecemos muito pouco os índios. A força dos atos de aniquilamento no início da colonização marca ainda hoje a imagem que temos do índio brasileiro. Considerado no século XVI canibal, preguiçoso e dado a magias temos dificuldade em sair do estereótipo e nos aproximarmos de seus sentimentos, suas atividades cotidianas, seus laços familiares e de convivência.
Não quis cair também em uma visão excessivamente romântica, cujo maior exemplo é José de Alencar. Embora não possa deixar de respeitar sua obra, essa representação do índio acabou levando ao outro extremo do estereótipo. A obra do cineasta e amigo Andrea Tonacci é melhor influência.
Desde o início da pesquisa do roteiro fiquei encantada por um fato real na vida de um índio que acabou inspirando o Zomé. Existe o registro na história do Brasil de um índio que se apaixonou perdidamente por uma mulher branca no primeiro olhar. E depois disso ele nunca mais foi o mesmo. Não conseguia mais se alimentar nem se relacionar sexualmente com as índias e foi perdendo a alegria, que até hoje pode ser considerada uma boa herança indígena para o jeito brasileiro de ser. No caso do nosso roteiro, construímos uma Mécia que vai se interessar pelos índios com os quais se sente acolhida e aceita embora aleijada. A integração de Zomé com a natureza, sua agilidade o fato de que ele olha para ela sem rejeição faz com que Mécia se apaixone por ele. Consideramos que ela, com seus atributos de uma pintora sensível, carinhosa com os curumins e aberta ao universo indígena seja capaz de atrair a paixão de Zomé. Mas como esta paixão seria manifestada? Índio beija? Quais são as caricias eróticas que ele e Mécia poderiam trocar? Tentamos de tudo, mas na hora de reescrever uma cena tropeçamos nestas questões. Acabamos com Zomé levantando a saia da Mécia em um gesto que, além de esteticamente temerário (com o agravante de um figurino com saia, saiotes e muito pano), nos pareceu completamente antierótico. Vamos tentar novamente…
Elza, 13-04-2009
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