Arquivo para Abril, 2009

Ânfora, bilha ou vaso

 

Uma das características de quem escreve um filme histórico é o gosto pela pesquisa. Com isso acabamos acumulando um conjunto de informações que devem ser bem dosadas para não ultrapassar o limite de uma rubrica de roteiro e, paradoxalmente, acabar atrapalhando a visualização de uma cena. Meu primeiro mestre de roteiro Hugo Moss me disse certa vez que uma descrição enxuta permite ao leitor recorrer à sua própria imaginação para preencher a cena. E consequentemente se envolver/emocionar mais. Confesso que nem sempre resisto à tentação de já colocar no roteiro elementos descritivos que poderão significar referências importantes para o leitor e também para a direção de arte. Talvez seja um vício de roteirista diretor e produtor. Talvez seja uma forma de ajudar a construir uma ambiência da época. Verdade é que eu e Pilar somos capazes de ficar horas discutindo (para o compreensível desespero do Newton) se escrevemos ânfora, bilha ou vaso.  Por isso o roteiro das órfãs (gosto de chamar este roteiro carinhosamente assim) é recheado de detalhes.

Elza     

Seja bem-vinda, Pilar

A presença da Pilar na vida das órfãs e da rainha começou com uma colaboração. Talentosa e dedicada ela foi, aos poucos, se tornando parte da história. Trabalhando no roteiro, estabelecemos uma interlocução que nos parece rica e instigante. Pensamos em tentar transpor para este blog nossas dúvidas e tentativas, e quiçá algum acerto sob a bênção do Newton.
Apesar de todo o esforço de pesquisa, uma grande dificuldade com o personagem do índio Zomé persiste. E consequentemente na relação dele com Mécia, uma das três irmãs protagonistas.
Conhecemos muito pouco os índios. A força dos atos de aniquilamento no início da colonização marca ainda hoje a imagem que temos do índio brasileiro. Considerado no século XVI canibal, preguiçoso e dado a magias temos dificuldade em sair do estereótipo e nos aproximarmos de seus sentimentos, suas atividades cotidianas, seus laços familiares e de convivência.
Não quis cair também em uma visão excessivamente romântica, cujo maior exemplo é José de Alencar. Embora não possa deixar de respeitar sua obra, essa representação do índio acabou levando ao outro extremo do estereótipo. A obra do cineasta e amigo Andrea Tonacci é melhor influência.
Desde o início da pesquisa do roteiro fiquei encantada por um fato real na vida de um índio que acabou inspirando o Zomé. Existe o registro na história do Brasil de um índio que se apaixonou perdidamente por uma mulher branca no primeiro olhar. E depois disso ele nunca mais foi o mesmo. Não conseguia mais se alimentar nem se relacionar sexualmente com as índias e foi perdendo a alegria, que até hoje pode ser considerada uma boa herança indígena para o jeito brasileiro de ser. No caso do nosso roteiro, construímos uma Mécia que vai se interessar pelos índios com os quais se sente acolhida e aceita embora aleijada. A integração de Zomé com a natureza, sua agilidade o fato de que ele olha para ela sem rejeição faz com que Mécia se apaixone por ele. Consideramos que ela, com seus atributos de uma pintora sensível, carinhosa com os curumins e aberta ao universo indígena seja capaz de atrair a paixão de Zomé. Mas como esta paixão seria manifestada? Índio beija? Quais são as caricias eróticas que ele e Mécia poderiam trocar? Tentamos de tudo, mas na hora de reescrever uma cena tropeçamos nestas questões. Acabamos com Zomé levantando a saia da Mécia em um gesto que, além de esteticamente temerário (com o agravante de um figurino com saia, saiotes e muito pano), nos pareceu completamente antierótico. Vamos tentar novamente…

Elza, 13-04-2009

Abrindo as janelas…

O primeiro (e, até então, único) post deste blog tem mais de um ano de vida. Sim, a gente sabe que isso é vergonhoso, mas as justificativas são muitas e todas válidas. Resumindo a história: o volume de trabalho da Elza e do Newton cresceu bastante, dificultando a manutenção deste espaço de divulgação e discussão. Por isso, me ofereci para dar uma mãozinha, dar corda no blog e agitar um pouco a discussão sobre o aprendizado de roteirista, a partir da experiência com o projeto das Órfãs da rainha.

Para quem não me conhece, permita-me uma breve apresentação…

De quem sou eu e de como vim parar aqui

Meu nome é Pilar Fazito. Sou mineira de Belo Horizonte, formada em Letras (Português/Francês) pela UFMG, onde também cursei o mestrado em Linguística (Análise do Discurso). Trabalhei por 10 anos como professora até que em 2004 fiz uma oficina de roteiro no Festival de Inverno em Diamantina, com o roteirista Marcelo Gomes, autor de Cinema, aspirinas e urubus. A partir daí até 2007, escrevi e rascunhei alguns roteirinhos de curtas e documentários mais como um hobby, entre um emprego e outro em escolas e faculdades.

Em 2007, fui convidada pelo editor Júlio Daio Borges para escrever no Digestivo Cultural. Desde então, publico crônicas ali às segundas-feiras. No mesmo ano, fui selecionada para o Laboratório de roteiros do Cineport, promovido pela Persona Filmes, e foi aí que conheci a Elza e o Cannito. Com a orientação e a ajuda deles, adaptei para o cinema o livro A guerra dos bastardos, de Ana Paula Maia. A experiência foi tão boa e marcante que me fez repensar minha trajetória profissional e tomar uma atitude bastante ousada: deixar de dar aulas e me dedicar aos roteiros.

Mudar de profissão aos 30 anos não é nada fácil. Principalmente quando não temos ninguém na família que conheça o novo ramo e crescemos com a idéia errônea de que, apesar de ser uma experiência extasiante e indescritível, a escrita artística não tem muita utilidade no dia-a-dia. Descobrir o caminho das pedras sozinho, por outro lado, traz gratas surpresas e uma delas, para mim, foi o convite que a Elza me fez em 2008 para colaborar na escrita do roteiro das Órfãs da rainha.

Desde então, a gratidão é diária: o aprendizado tem sido completo e não se resume apenas ao ofício de roteirista.

Feita a apresentação, vamos às Órfãs…

Em fevereiro de 2008, me encontrei com a Elza no escritório da Persona e ela me apresentou a idéia de seu novo longa histórico. Ela e o Cannito já haviam se debruçado sobre o tema e chegaram a um argumento bastante instigante, de modo que, quando eu cheguei, o mais difícil já tinha sido feito: esboçar uma história. Por mais que ela ainda fosse etérea e estivesse razoavelmente clara apenas na cabeça desses dois, eu não tive que passar por aquela parte angustiante (mas também gratificante) da criação advinda do nada.

Basicamente, As órfãs da rainha conta a história de três moças que perderam os pais ainda muito pequenas, após uma denúncia feita à Inquisição. Elas acabam sendo criadas como órfãs da rainha e recebem, portanto, uma educação católica, apagando da lembrança a própria origem judaica. Anos mais tarde, são enviadas para o Brasil sob o pretexto de se casarem e povoar a colônia, mas o verdadeiro motivo é a preocupação da rainha de que a origem de suas niñas seja descoberta com o endurecimento da Inquisição em Portugal. O Brasil seria, então, um refúgio. Duas das irmãs se casam, mas a caçula permanece solteira, porque tem o pé aleijado. Elas são enviadas para Vila Morena, um vilarejo encrustado na Chapada Diamantina e ali têm que se adaptar, cada uma a seu modo, à precariedade do lugar e à nova realidade. Quando finalmente as coisas começam a se ajeitar, a capitania recebe a Visitação do Santo Ofício. O segredo da origem judaica das órfãs fica ameaçado, bem como a segurança delas em Vila Morena.

Para chegar a essa idéia, a Elza passou quatro anos lendo tudo quanto é livro, textos na internet e todo tipo de material sobre a Inquisição e a Visitação do Santo Ofício ao Brasil. Ela disse que foram mais de 300 livros. E eu acredito, porque só conheço uma leitora mais compulsiva do que ela. A mãe dela.

Por fim, recebi o pequeno “resumo” dessa pesquisa: 700 páginas distribuídas em quatro pesados volumes encadernados. Além desse resumo, seria necessário ler rápido o livro As confissões da Bahia, do historiador Ronaldo Vainfas, já que o filme seria baseado nos registros reais dos primeiros moradores brasileiros, que ficaram apavorados com a chegada do Santo Ofício em nossas terras, lá pelos idos de 1591.

E aprendi que o aprendizado do roteirista começa assim: ler, ler e ler, já que quem não lê, não tem nada a dizer. Mas eu sou boa aluna e li tudo o que me foi indicado. Acabei lendo a pesquisa duas vezes. Também li e adorei as confissões reunidas pelo Vainfas. Ao longo do ano, ainda li muitas outras coisas que a Elza me passava e a cada leitura, me envolvia mais com o tema e com o compromisso de dar voz aos pobres coitados que sofreram com a perseguição inquisitorial.

Uma pesquisa como essa é importantíssima porque ajuda a ambientar a história e a definir as possibilidades de ação e de pensamento, além dos diálogos, de cada personagem. Foi assim, por exemplo, que recebemos um puxão de orelha do Ronaldo Vainfas logo no primeiro tratamento, quando imaginamos, ingenuamente, um senhor de engenho que pegava no pesado e cortava canas pessoalmente.

Eu e a Elza somos bastante tinhosas e relutamos muito, mas a coerência histórica acabou falando mais alto. E não há nada melhor do que o tempo de amadurecimento de um roteiro. Hoje, estamos iniciando o 8o tratamento e rimos (um tanto envergonhadas, confesso) toda vez que lembramos desse puxão de orelhas. Na época, foi difícil aceitar o que hoje nos parece óbvio: senhor de engenho tem que ter escravos, ele manda os outros trabalharem e jamais, em tempo algum, ficaria suando em bicas, cortando cana no meio do canavial.

Esse é apenas um dos muitos casos que estamos colecionando desde então e que pretendemos compartilhar com os leitores deste blog e com quem mais quiser acompanhar esta saga. Portanto, tomem seus lugares, apertem os cintos e apreciem a paisagem ao longo do trajeto. A gente aprende e se diverte ao mesmo tempo.

Até a próxima.