Faz mais de um ano que trabalhamos na escrita do roteiro das Órfãs. E trabalhamos com afinco. É tanto afinco que domingos, feriados e até mesmo um carnaval no corredor da Vitória, em Salvador, não fazem muita diferença quando resolvemos sentar para bater o texto pela milésima vez, a fim de encontrar os furos da trama, o ritmo que se perdeu, os cortes mal ajustados, a emoção do personagem em determinada cena e por aí vai.
Se tem uma coisa que ficou bastante clara para nós ao longo dessa experiência é que há tempo para tudo e mesmo um roteiro tem o seu tempo de maturação. Estamos “peneirando” o texto mais uma vez e finalmente chegando ao final do oitavo tratamento. Rever e reescrever a mesma história tantas vezes é um exercício tão cansativo quanto gratificante. Cansar, cansa mesmo. Mas quando a gente começa a sentir que a história ganhou carne e não apenas está convincente como emocionante, dá uma alegria danada. Um orgulho meio maternal em relação a cada personagem criado e a cada diálogo certeiro.
Tenho uma amiga que diz que a gente tem que guardar as fotos da adolescência para constatar como a gente melhorou com o tempo. Acho que o mesmo pode ser dito em relação aos primeiros tratamentos de um roteiro. Desconfie se você achar que o primeiro tratamento de seu filme é bom. Desconfie muito. Geralmente, o primeiro tratamento é um pouco mais do que uma escaleta, o que quer dizer que o enredo ainda está cru, ainda está no osso e merece ser trabalhado feito massa de pão e alimentado diariamente com novas idéias.
O primeiro tratamento das Órfãs saiu até rápido. Estávamos com os olhos nos prazos de alguns editais e precisávamos dá-lo por terminado a fim de inscrever o projeto. Nossa sorte é que a simples concepção da história, o próprio argumento, já é instigante por si só. Não há quem não se interesse pelo assunto quando começamos a contar sobre o que se trata.
Mesmo o primeiro tratamento teve avaliações bem positivas. Ainda assim, quando comparamos hoje a versão deste oitavo tratamento com aquilo que havíamos escrito no primeiro, geralmente eu e a Elza temos crises de riso. Sobretudo com os diálogos. É que muito do que estava na primeira versão havia sido pensado com as cabeças de um homem e de duas mulheres independentes do século XXI. À medida que mergulhamos cada vez mais na história do Brasil do século XVI, percebemos vários erros históricos que não passariam nem mesmo pelo nosso crivo, caso fossemos meros espectadores. Nossa Mécia, por exemplo, não poderia ter permissão do padre Joaquim para sair pela floresta com os índios da missão. Jamais! E é engraçado como uma coisa dessas, aparentemente óbvia, às vezes demora a saltar à vista.
Quando salta, entretanto, salva os nossos diálogos porque a reprimenda que fazemos a nós mesmas é a que nossos personagens fariam: “D. Mécia, essas florestas não são os jardins da corte!”
Há muitos personagens nas Órfãs e precisamos sentir, em cada cena, o sentimento de cada um deles. Precisamos considerar o que eles sabem, o que não sabem, o que fizeram e como pensam para que o diálogo, finalmente, chegue até nós de forma natural.
Quanto aos erros históricos, há aqueles intencionais, que fazem parte da ficcionalização da trama, e aqueles que são imperdoáveis. Também tivemos o prazer (e o cuidado) de consultar o historiador Ronaldo Vainfas logo no início dos trabalhos. Foi ele quem nos aconselhou a mudar o nome dos personagens históricos a fim de manter clara essa intenção ficcional. Foi ele também quem nos alertou para o imperdoável senhor de engenho que realizava trabalhos braçais no primeiro tratamento. A correção desse erro já foi feita, mas acabou encarecendo a produção, uma vez que, para acatarmos o razoável, tivemos que disponibilizar um número considerável de escravos para esse senhor de engenho (aumento de custo com figuração), além de aumentar sua propriedade (aumento de gastos com locação e direção de arte).
Mas a relação custo x enredo é assunto para um outro post.
Até lá.
Pilar
